Aproveitar a Solvência II para “repensar o posicionamento estratégico e melhorar os processos internos”

dv1242006_22O deadline está marcado: 1 de Janeiro de 2016. É nessa altura que o novo regime de Solvência II, ditado pela Comissão Europeia entra em vigor E embora a data pareça estar longe na verdade está demasiado perto. Principalmente para as seguradoras ainda não iniciaram os projectos de implementação.

E, se hoje os principais riscos do sector decorrem de factores externos, como a componente macroeconómica, o endividamento público e privado, a taxa de desemprego, os fluxos migratório, entre outros factores, a solvência II vai trazer novas formas de reporting mas igualmente novos riscos. São novos cálculos, novas formas de fazer e avaliar o negócio. Uma avaliação que, para Hugo Borginho, coordenador do departamento de Análise de Risco e Solvência do Instituto de Seguros de Portugal (ISP), está mais próxima dos princípios económicos.

Relativamente ao negócio segurador a implementação da solvência II pode implicar, nalguns casos, o reforço dos fundos próprios ou a redução do índice de risco. Mas a maior questão/problema, alerta o executo do ISP é que, embora a solvência II só entre em vigor a 1 de Janeiro de 2016, em 2015 as seguradoras já terão de reportar resultados nesse formato. Há que fazer testes e começar a planear todo o processo com a devida antecedência. Porque convém não esquecer que “é crucial hoje o novo regime na gestão operacional diária e na estratégia de negócio”.

E quanto mais cedo isso for feito, melhor. Porque o novo regime pode ter impactos significativos a vários níveis dentro da empresa e seu negócio. É o caso do desenho e tarifação de produtos, política de investimentos, política de resseguro e transferência de riscos, sistema de governação, e sistemas de reporte e prestação de informação. O que leva Hugo Borginho a afirmar que esta é “simultaneamente uma excelente oportunidade para repensar o posicionamento estratégico e melhorar os processos internos”.

O planeamento atempado vai permitir que a seguradora reveja o seu posicionamento estratégico no mercado e as suas tolerâncias face ao risco de acordo com as novas medidas. Com isto poderá antecipar eventuais necessidades de reforço do capital ou de de-risking, adaptar as estruturas de governação, orientadas para a promoção de uma cultura de gestão baseada nos riscos, definir e implementar a política de auto-avaliação do risco e da solvência (ORSA), assim como adaptar e melhorar os sistemas e processos de recolha, armazenamento e validação dos dados.

E, como uma empresa não actua sozinha é muito importante a comunicação e partilha de dados. Eventos de formação onde os executivos e as organizações possam tirar dúvidas.

ISP - solvenciaO Business Analytics conversou com Hugo Borginho, por ocasião do  evento REN, Risk Executive Network, organizado pelo SAS; no passado dia 22 de Julho, que elucidou sobre os desafios que as seguradoras estão a enfrentar na implementação da solvência II, assim como as dificuldades que estão a ser comunicadas ao ISP e a forma como este tem ajudado as organizações.

Business Analytics – Qual o valor que atribui a encontros, como o Risk Executive Network for Insurance, e de que forma é que podem contribuir, nesta fase de preparação, para adopção de Solvência II?

Hugo Borginho – Eventos do tipo Risk Executive Network for Insurance, enquanto fóruns de informação e de debate sobre matérias relacionadas com os riscos e a solvência no setor segurador, são de grande importância e utilidade, na medida em que promovem a partilha de conhecimentos e de experiências práticas entre os responsáveis pela gestão dos riscos das várias empresas de seguros e outros stakeholders, podendo contribuir globalmente para a melhoria dos processos implementados e, consequentemente, para o reforço da credibilidade e da robustez do setor. Naturalmente que essa utilidade é tanto maior quanto mais interativo for o debate, pelo que os organizadores e os moderadores desempenham um papel crucial em estimular a audiência, lançando questões práticas pertinentes e de reconhecida importância pelos presentes para o seu dia-a-dia.

Sendo o Solvência II o projecto mais importante do sector nesta área, no actual contexto, e tendo em conta a abrangência dos temas e a dimensão dos desafios práticos que coloca, sem dúvida que eventos deste tipo proporcionam uma excelente oportunidade para a promoção de uma visão holística e convergente entre os participantes, indispensável para uma transição suave entre regimes.

B. A. – Do conjunto de desafios que as seguradoras enfrentam durante os anos de 2014/2015, quais é que destaca como sendo os mais importantes?

H. B. – Desde logo, um dos principais desafios diz respeito à necessidade de continuar a gerir o negócio e os riscos numa conjuntura que permanece complexa, ao mesmo tempo que são identificados e implementados todos os processos e ferramentas necessários para dar pleno cumprimento ao novo regime.

Não menos importante, a promoção de uma cultura de gestão baseada nos riscos, embebida em todas as funções da empresa, é outro desafio de assinalar. De facto, a mudança de cultura é, por natureza, um processo lento, na medida em que desafia o status quo e provoca mudanças nos procedimentos internos e até nas mentalidades. No entanto, este é um factor chave para garantir que o trabalho desenvolvido para implementar o regime Solvência II vai muito além de um mero exercício de compliance, mas representa efectivamente uma mais-valia para a gestão estratégica da empresa.

B. A. – Quais as maiores dificuldades que as seguradoras transmitem ao ISP?

H. B. – Nesta fase, diria que uma das principais preocupações está centrada sobretudo na preparação e adaptação dos sistemas de reporte, necessária para a produção dos relatórios e templates relevantes. Tal é especialmente desafiante pelo facto de alguns dos contornos finais do regime não se encontrarem ainda definitivamente estabelecidos.

Adicionalmente, ressaltam dificuldades práticas na produção analítica de alguns dos itens quantitativos de maior complexidade, necessários para a avaliação das provisões técnicas e dos requisitos de capital, a que não é certamente alheio o facto de se encontrar em curso um exercício de estudo de impacto quantitativo nacional, lançado pelo ISP, onde esse tipo de reporte é solicitado.

Outra das áreas que tem vindo a ganhar destaque e onde, consequentemente, começam a surgir dúvidas práticas, tem que ver com o desenho e implementação de exercícios de auto-avaliação dos riscos e da solvência (ORSA).

B. A. – Qual a situação actual em termos de implementação do novo regime de solvência nas seguradoras portuguesas? Até que ponto é que o programa pode exigir reforços de capital?

H. B. – O mercado segurador tem, ao longo dos anos, demonstrado um elevado nível de interesse pelo desenvolvimento do novo regime, o que é revelado pelas taxas de participação nos estudos de impacto quantitativo que têm vindo a ser realizados desde há vários anos. Apesar do carácter voluntário dos anteriores estudos, o nível de participação tem sido sistematicamente dos mais elevados a nível europeu. Adicionalmente, esta preparação é facilitada pela política adoptada pelo Instituto de Seguros de Portugal (ISP), de incorporação gradual no quadro regulamentar nacional dos princípios basilares do Solvência II, como são exemplo as áreas da governação e do cálculo das provisões técnicas segundo princípios económicos.

Não obstante estas conclusões, é claro que há ainda muito por fazer. É nesse âmbito que o ISP lançou em maio um exercício de estudo impacto quantitativo nacional, designado QIS 2014, e se prepara para lançar um conjunto de iniciativas adicionais focadas em outras áreas chave do regime.

Um dos grandes objectivos do QIS-2014 tem que ver precisamente com o reconhecimento antecipado do impacto do novo regime em termos de requisitos de capital, de forma a adequar progressivamente o binómio capital disponível versus capital exigido, o que pode ser feito através do numerador (reforço dos fundos próprios) e/ou do denominador (de-risking das carteiras). É expectável que o impacto líquido seja diferenciado entre operadores, o que decorre da maior sensibilidade aos riscos das novas medidas de capital comparativamente com as regras actuais. E é também natural que os operadores tenham de fazer ajustamentos às suas políticas, no sentido de maximizar o retorno do seu negócio face aos níveis de capital e, consequentemente aos riscos, que estão dispostos a reter.

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