eHealth deve centrar-se no conhecimento, além da integração

Adel Taweel, do King’s College em Londres, defende a produção e partilha de conhecimento nos sistemas de saúde.

Os problemas que o sector atravessa, as dificuldades em realizar mudanças e as vantagens e conseguir uma maior partilha. Apenas alguns dos temas abordados pelo especialista que acredita que a partilha permitiria “reduzir custos, mas também de, com o fluxo de informação cíclico, reduzir o tempo de produção de medicamentos”.

q3eHealth deve centrar-se no conhecimento, além da integração

18 de Julho de 2014

Os esforços de interligação de pólos de informação têm de concorrer para a constituição de um sistema de saúde capaz de aprender sobre si mesmo, considera o investigador Adel Taweel.

Para resolver ou mitigar os principais problemas dos actuais sistemas nacionais de saúde, os projectos de eHealth têm de centrar-se na produção e partilha de conhecimento sobre aquelas estruturas. O investigador Adel Taweel, do King’s College em Londres, defende esta ideia, na medida em que fazer a interligação de sistemas de informação e integração de dados, sem perceber o valor resultante, não permitirá oferecer melhores serviços de saúde aos pacientes. Ou, pelo menos, dificultará o processo.

Por isso, durante a conferência sobre eHealth, integrada nas conferências MCCSIS 2014 que decorrem esta semana, sugeriu que as iniciativas naquela área devem concorrer para a constituição de sistemas de aprendizagem de saúde. Serão estruturas capazes de obter conhecimento a partir da rede de agentes que a constituem para fornecer melhores serviços de saúde ao paciente.

Esta organização pressupõe um fluxo bidireccional de informação e conhecimento entre o universo mais clínico e o da investigação. Deverá centrar-se em valores como o alto grau de qualidade, a acessibilidade e a sustentabilidade financeira dos serviços, sugere.

Só dessa forma se conseguirão resolver problemas como o incremento crescente de custos e o impacto do envelhecimento da população. Para o mesmo especialista, as “oportunidades da eHealth estão a tornar-se rapidamente em necessidades”.

É uma das respostas possíveis à pergunta se haverá mais oportunidades ou desafios associados aos esforços de eHealth. Contudo, Taweel diz que se não houver um forte “envolvimento” entre os vários agentes, clínicos, de investigação e os próprios utentes, a evolução da eHealth será “sempre como subir uma montanha”.

Obter conhecimento sobre processos e interacções

A integração de centenas de milhar de sistemas de instituições na Europa é um problema de escala e o desafio será ainda maior devido aos silos de informação até agora criados, que levarão a um imenso “monte de esparguete”, dá como exemplo. O foco da eHealth não deve ser só a integração, com a disponibilização da informação certa, na altura certa e à pessoas certa, no devido contexto, afirmou.

Mais importante serão os processos, a interacção entre agentes e o conhecimento obtido sobre como isso funciona e como pode melhorar. Neste contexto, a investigação clínica não se pode separar do sistema de saúde, alerta Taweel, “se queremos que o melhore”.

Até agora, a investigação clínica “tem estado mais preocupada com a fiabilidade dos dados fornecidos pelos médicos, em vez de os ajudar”, exemplifica. Há uma falta nociva de alinhamento entre os dois pólos, diz o investigador.

Por isso, será necessário a implantação de uma plataforma “fiável, dinâmica para partilha de informação e conhecimento”. Mas esta enfrenta a indisponibilidade e a renitência dos médicos em fornecer informações.

É um problema passível de ser resolvido se houver maior partilha de informação sobre como os dados vão ser usados, por quem, com que objectivo e como vão beneficiar os médicos. Aplicada aos pacientes, até estes deverão aderir melhor ao processo.

“Hoje estamos apenas a colocar informação em silos”, alerta Taweel. Mas existe uma oportunidade importante na correlação de diferentes tipos de dados, oriundos de diferentes sítios.

“Raramente tentamos descobrir o porquê das decisões e dos eventos médicos”, nos projectos de integração de dados, assinalou o orador. Não há apenas a possibilidade de reduzir custos, mas também de, com o fluxo de informação cíclico, reduzir o tempo de produção de medicamentos.

Será possível igualmente acelerar a transposição e generalização de novos procedimentos aprovados para os corpos clínicos. “Actualmente, um novo procedimento clínico comprovado demora 17 anos a generalizar-se”, explica. O desafio envolve conseguir transmitir conhecimento tácito aos médicos, sem obrigá-los a despender muito tempo a ler longos documentos técnicos.

Redes sociais cada vez mais importantes

Desde há cerca de três ou quatro anos, o contexto cultural dos pacientes tem ganho importância. E para a recolha de elementos sobre o mesmo, as redes sociais são uma fonte importantíssima, segundo Adel Taweel. Trata-se de obter detalhes para ajudar melhor os doentes, justifica. Por isso, as referidas plataformas deverão ser consideradas como pólos de informação do sistema de aprendizagem.

O problema mais geral das estratégias de eHealth envolve mudar o foco dos projectos, da integração e transformação dos dados, para o lado da aplicação e do suporte à decisão. Os desafios de âmbito técnico serão os mais fáceis de resolver, segundo Taweel.

Mais difíceis são os de governação e de legalidade. Há demasiados entraves sobre privacidade de dados e muitos factores de responsabilização sobre os médicos, desabafa.

Um erro médico pode hoje custar a carreira de um clínico, lembra. E com a pressão das companhias de seguros sobre o apuramento de responsabilidades dos médicos, estes sentem-se cada vez menos favoráveis a partilhar informação sobre os seus procedimentos. “Esta tendência tem crescido e está a tornar-se cultural”, particularmente na Europa, afirma.

Além disso, os clínicos não gostam de partilhar informação por considerarem-na potenciais elementos de vantagem competitiva do ponto de vista do negócio. Taweel queixa-se também da comunicação social, a qual acusa de gerar medo e desconfiança sobre a partilha de dados, no público em geral.

Entre os desafios técnicos, o investigador considera que seria possível facilitar a adopção de normas tecnológicas para partilha de informação. Segundo o mesmo, as instituições não “investem mais tempo” nisso porque as normas (ou tecnologia conforme) são caras.

A diversidade dos sistemas de informação da saúde e a interoperacionalidade entre eles mantém-se como um desafio importante. Mas além disso, segundo o especialista, é necessário haver um maior envolvimento da comunidade de TI da saúde com os médicos.

Isso é útil, numa lógica de sistema de aprendizagem de saúde, para conhecer como são criados os dados. Poderá mesmo resolver questões importantes de qualidade dos dados.

Para o investigador, é cada vez maior a necessidade de a mesma comunidade demonstrar com provas, como as aplicações e a partilha de dados podem ajudar os médicos. Só assim se consegue o seu apoio.

Duas abordagens à interoperacionalidade

Há duas abordagens principais a emergir para suportar a interoperacionalidade de sistemas de informação no sector da saúde, de acordo com Adel Taweel. Um baseia-se na federação de bases de dados e a outra assenta em lógicas de mediação.

No primeiro modelo, usam-se bases de dados distribuídas e técnicas de sistemas distribuídos para integrar dados de diferentes fontes. No segundo, usam-se técnicas orientadas por conhecimento para mediar e interoperar com diferentes fontes de dados.

Artigo publicado no Computerworld, a 18 de Julho de 2014. Pode ler o original AQUI.

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